O Brasil é o caos. Uma delícia de caos. Caos de corpos. Caos de cacofonia. Solda dô-dê-cá-fônica. Eletrônica afonia. Já que sou brasileiro, diga lá camarada Lenine, soul do Jackson do Pandeiro.
O que nos leva a outro galho, ocupado por macaco pesado, na trilha da matilha do pó que vem do chão. Ô leva eu, Riachão…
Rap-repente, réptil, repelente, repto latente, um doce cortante, ácido, árido, ávido, Caju e Castanhain the movie.
No inícios dos anos 60, as paredes do metrô de Londres começaram a ser cobertas por estranhas pixações, que diziam “Eric is God”. O Deus, no caso, era Eric Clapton, guitarrista que, para muitos dos seus fãs, só conseguia fazer o que fazia com a guitarra não porque tinha dons divinos, mas sim porque era o próprio Deus.
Eric nunca deu muita bola para essa baboseira toda, já que seu principal objetivo, desde que empunhou uma guitarra, era virar negro. Bem, isso nem os poderes divinos de Eric conseguiram. Ele continua sendo um branquelo, mas sua alma, essa sim, com certeza, mudou de cor, ficou negra, negra como o blues.
Aqui uma seleção de performances de Clapton, sendo que as duas primeiras – interpretações de Crossroads, um clássico do lendário bluesman Robert Johnson – são separadas por um mar de heroína e álcool, no qual o guitarrista mergulhou durante tenebrosos anos, mas do qual emergiu com força e carisma redobrados.
Na seqüência, versões elétrica e acústica de Layla, um clássico de Clapton e ode a uma das de suas grandes paixões, Pattie Boyd, ex-mulher de um de seus maiores amigos, o falecido beatle George Harrison (o desespero na melodia e interpretação não é, portanto, gratuito). Outro vídeo que merece destaque é Tears in Haven, canção que o guitarrista dedicou a seu filho de quatro ano que morreu ao cair da janela de um prédio. Na época, muita gente apostou que Clapton cairia de boca novamente na heroína e no álcool, mas o sujeito segurou e foi adiante. E Tears in Heaven tem certamente muito a ver com essa segurada de barra.
Em 2003, os moleques do Arctic Monkey entraram numas de gravar alguns CDs demo, que vendiam em shows nos botecos de Sheffield, cidade inglesa onde viviam. O pessoal começou a gostar das músicas e a querer comprar os tais CDs de fundo de quintal, mas os moleques da banda não tinham dinheiro pra atender à inesperada demanda. Então, outros moleques, os que assistiam aos shows e gostavam das músicas, começaram a colocar as canções dos CDs demo na Internet. Resultado: sem nunca terem lançado um CD oficial, os “Macaquinhos do Ártico” se transformaram, de repente, na banda mais popular do Reino Unido. Em 2006, quando seu primeiro disco (Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not) chegou às lojas, após todas as músicas terem virado hist on line, o álbum vendeu 120 mil cópias só no primeiro dia, totalizando 363.735 CDs em apenas uma semana. Coisa de pirar a cabeça de qualquer moleque, não é? Só que, ao contrário de outras bandas contemporâneas inglesas que vivem sendo apontadas pelos críticos como o futuro do rock and roll britânico – e começam a se levar a sério demais -, Alex Turner, guitarra e vocal; Jamie Cook, guitarra; Nick O’Malleu, baixo, e Matt Helders, bateria e vocal, continuaram cagando e andando, isto é, continuaram se divertindo fazendo o que sempre gostaram de fazer. Seu segundo disco, Favourite Worst Nightmare, lançado em abril de 2007, comprova bem isso, embora a molecadinha se mostre cada vez mais afiada em seus ataques. O espírito do Arctic Monkeys talvez possa ser bem apreendido pela resposta do seu baterista, Matt, ao ser indagado sobre o que a banda esperava do futuro. Ele respondeu: “Sei lá, temos apenas 21 anos.”
Abaixo, uma série de apresentações dos Macaquinhos do Ártico, em palcos ingleses e norte-americanos e também dois clipes interessantes. O primeiro – de A view from the afternoon - ilustra bem o clima das composições dos garotos, falando de um cotidiano quase sempre muito chato num ambiente mais chato ainda. O segundo clipe, Brianstorm, é do disco novo e a banda simplesmente esconde a cara, o que é algo bem inusitado em se tratando de segundo disco que se segue a um primeiro álbum de sucesso estrondoso. Mas moleques são assim mesmo, vivem aprontando!
Interessante também é a apresentação ao vivo de Scummy, no Astoria, em Londres, em 2005 – reparem como quase um ano antes de lançarem seu primeiro disco os moleques do palco já deixavam os moleques da platéia alucinados. Mas moleques são assim mesmo, vivem aprontando!
Mardy Bum
A view from the afternoon
Brianstorm
Fake Tales Of San Francisco
I Bet You Look Good On The Dancefloor
Arctic Monkeys – Scummy (live Astoria, London 06-10-2005)
Há exatos 30 anos, os ouvidos do Reino Unido – e pouco depois milhões de ouvidos em todo o mundo – eram literalmente estuprados por um disco chamado “Nevermind the Bollocks”, álbum de estréia de uma banda que atendia pelo nome de Sex Pistols. Embora pairem sobre os Pistols uma série de críticas, como por exemplo a de não passarem de uma mera banda armada por um dono de butiques de roupas londrinas (Malcolm McLaren), com o único objetivo de vender um estilo de moda para os jovens, foram o vocalista Johnny Rotten ( Joãozinho Podre, em tradução livre) e seus companheiros que realmente deram o pontapé inicial na revolução punk que dominaria a cena do rock no final da década de 70. Aqui, algumas das raras apresentações dos Pistols, com a participação do baixista Sid Vicious, morto pouco tempo depois por overdose de heroína e suspeito de ter assassinado a própria namorada, Nancy, sob o efeito de drogas. A curta e desesperada vida do casal deu origem a um filme, Sid and Nancy, que passou no Brasil com o subtítulo “O Amor Mata”. Os Pistols realizaram recentemente um revival, mas ninguém parece ter levado muito a sério.
Com vocês, então, os Sex Pistols. Cuidado com os ouvidos – e com as bolas, é claro!