O chamado “Verão do Amor” aconteceu em 1967, na Califórnia, EUA, no auge do Movimento Hippie. Foi também em 1967 que aconteceu o Monterey Pop, festival que deu origem a um tipo de evento que se repetiria com freqüência ao longo dos anos seguintes, tendo seu ápice dois anos depois, em 1969, com Woodstock.
Sob inspiração e coordenação de John Philips, dos Mamas and Papas, o Monterey Pop ficou marcado também por outros fatos significativos. Foi ali que Jimi Hendrix, depois de ser “compreendido” pelos ingleses e convidado por insistência de Paul McCartney, se apresentou pela primeira vez nos EUA com o Experience.
Foi no festival também que Janis Joplin e Otis Redding (que morreriam logo depois, uma de overdose e o outro de acidente aéreo) se projetaram no mainstream de então.
Na Parada, alguns momentos da celebração que aconteceu há 40 anos, entre os dias 16 e 18 de junho de 1967, na cidade californiana de Monterey. Ah, e se você for a San Francisco, não esqueça de usar flores no cabelo, mesmo que pareça estranho…
Scott McKenzie San Francisco Monterey 1967
Janis Joplin @ Monterey Pop Festival
jimi hendrix – wild thing (monterey pop festival 1967)
Alguém já disse que ela era uma espécie de “Neil Young de saias”. Em geral, não tenho muito saco pra cantoras country – em especial as ditas “modernas” -, que é a categoria onde, na maior parte das vezes, a moça é catalogada. Contudo, a referência ao “lobo canadense perdido”, isto é, a Neil Young, me fez procurar por alguma coisa dela na net, já que aqui no Brasil a tal de Lucinda Williams era uma ilustre desconhecida.
Minha esperança era encontrar uma compositora e cantora daquilo que alguns chamam de “country dark” , gênero que parece ter bebido muito também na fonte do blues e do folk, com mergulhos radicais no rock and roll, um estilo que Johnny Cash “inventou” (“Folsom Prison Blues“, a música que Cash toca para o produtor da sua primeira gravadora no filme Johnny and June, é um bom exemplo), que o próprio Neil Young tão bem desenvolveu e que contaminou vários artistas, como Aimee Mann (qualquer hora a gente fala dela aqui também) e outras cantoras e cantores que escaparam da melação e do reacionarismo que contamina a maior parte da cena do country norte-americano.
Mas, voltando a Lucinda, ela não é exatamente “um Neil Young de saias”, até porque ela quase não usa saias e porque a moça é, com certeza, bem mais bonita do que o “lobo canadense perdido”. A comparação, no entanto, tem a ver, e quem conhece Young vai constatar. Outra informação interessante é que, se os discos de Lucinda não saem aqui, nos EUA ela também nunca foi tratada como superstar e só nos últimos tempos passou a ter seu trabalho um pouco mais reconhecido, principalmente devido a citações elogiosas de gente como Bob Dylan e Bruce Springsteen. Seu último disco, West (um dos vídeos postados aqui – “Lucinda Williams West In Stores Now!” - documenta a gravação desse álbum) vem fazendo muito sucesso lá fora, o que talvez alavanque seu lançamento no Brasil.
Finalizando, gostaria de compartilhar com vocês minha indecisão sobre escolher em qual tag encaixo este post, pois Lucinda não é country, não é blues, não é jazz nem rock and roll. Então, vou “inaugurar” uma nova categoria com ela, a de cantoras. Aí vai!
Lucinda Williams JOY (live)
Lucinda Williams – Come On
Lucinda Willims – Austin City Limits
Lucinda Williams – Car Wheels On A Gravel Road Live NL 2006
Lucinda Williams West In Stores Now!
“ESSENCE” by Lucinda Williams
Lucinda Williams – Righteously and more
Lucinda Williams & Alejandro Escovedo Forum 3-28-07
Durante uma entrevista, Fernando Gabeira, ainda e tão somente um ex-guerrilheiro que tinha virado (bom) escritor e que acabava de voltar do exílio, disse que havia achado “Inútil”, a música do Ultraje a Rigor , que na época não parava de tocar no rádio, “uma coisa pouco patriótica”. Do outro lado do gravador, quer dizer, entrevistando Gabeira, eu pensei com os meus botões: “O Gabeira tem uma puta cabeça, mas acho que nessa ele pisou na banana, não entendeu o que os caras estão falando.” Reflexões políticas e filosóficas à parte, quando se fala em rock nacional, pouca gente dá ao Ultraje o valor que a banda, isto é, Roger Moreira e seus músicos de plantão, merece.
Tem gente discutindo até hoje onde “nasceu” o tal rock nacional do início dos anos 80. Uns dizem que foi em Brasília, com Legião e Paralamas; outros no Rio, com a Blitz e o Barão Vermelho, e outros em São Paulo, com o Ira! e o Ultraje. Discussões sobre o ovo e a galinha à parte, não há dúvida de que o Ultraje teve participação fundamental nesse “crime”. E não só apenas no som (o mais rock and roll de todas as bandas aqui citadas), mas também nas letras e, principalmente, na postura. Hoje, o Ultraje, com mais uma formação-relâmpago de (ótimos) músicos recrutada por Roger, continua se apresentando em circuitos, digamos, alternativos. Sua última inserção no mainstream foi com o Acústivo MTV, em 2005, cujo DVD vale a pena ser batalhado por aí. Então, agora, o Ultraje vai invadir a Parada.
Ultraje a Rigor – Nós Vamos Invadir Sua Praia (VMB 2005)
Ultraje a Rigor na MTV
Tio Wilson – Fanatico MTV – Ultraje a Rigor
Ultraje a Rigor – SEXO
Ultraje a Rigor-Eu gosto é de Mulher-Cassino do Chacrinha
Ultraje a Rigor ao vivo no Rock In Rio 3
Manito (Os Incriveis) com Ultraje a Rigor – 22-23/06/2005
Ultraje a Rigor no Marilia Gabi Gabriela – Band – 1986
Em outubro deste ano, o tropicalismo completa 40 anos. Foi no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, naquele mês de 1967, que Caetano Veloso e Gilberto Gil lançaram aos ares os acordes dissonantes que implodiram a cortina de ferro onde se entrincheirava a chamada “música de raiz”, uma ficção nacional-comunista. A MPB, sigla construída ao estilo da esquerda ortodoxa de então, assumira a condição de guardiã das tradições musicais brasileiras, na vã tentativa de mantê-las incólumes às novas formas de expressão, representadas pelo rock internacional e outras manifestações da contracultura.
Quando surgiu o tropicalismo, o mundo era uma barulheira. Todo mundo dava palpite. Eram várias revoluções por minuto, em todas as áreas, da política à alta costura, da poesia aos usos e costumes, da engenharia espacial à psicanálise.
No Brasil, estávamos na sala de espera do AI-5, a música popular ainda era uma grande arena de talentos e as artes em geral, cinema, teatro, literatura, artes plásticas, estavam imbuídas pela idéia da grande transformação. A televisão tomava o lugar do rádio como panteão nacional, onde se gestavam os novos heróis da cultura de massas.
Os musicais da TV Record refletiam tendências estanques: o iê-iê-iê, versão tupiniquim do rock ítalo-anglo-americano, a velha guarda da música brasileira, a chamada nova MPB e a cafonália, com seus bolerões, guarânias e versões de hits cafonas vindos da Itália, França e Estados Unidos. Cada qual tinha o seu próprio programa, em forma de revista, recital, parada de sucessos.
Essas tendências, de alguma forma, seguiam – à exceção do iê-iê-iê – fórmulas com tradição na escola musical brasileira. A Record, como havia acontecido com a Rádio Nacional no passado, reuniu todas elas e serviu de panela onde se cozinharam as contradições, que vieram a explodir aos primeiros acordes de guitarra dos Beat Boys em Alegria, Alegria e dos violinos e metais de Rogério Duprat na introdução de Domingo no Parque, no III Festival de Música Popular Brasileira, em outubro de 1967, no palco do Teatro Paramount.
A ruptura representada pela introdução das guitarras elétricas e da estética psicodélica dos Beat Boys e dos Mutantes, ao lado de dois músicos tidos como seguidores da tradição nacionalista, teve um impacto midiático sem equivalente nos dias atuais. E aquilo era só o começo. Nos anos seguintes, os festivais de música estariam definitivamente marcados pela polarização entre tropicalistas e emepebistas.
Os dois primeiros discos individuais de Caetano e Gil traziam novidades de forma e conteúdo, que puseram em alerta os cães de guarda das tradições nacionais. No de Caetano, sobressaía a música Tropicália, nome inspirado numa obra do artista plástico Hélio Oiticica e versos com pretensão de traduzir o impacto estético do filme Terra em Transe, do também baiano Glauber Rocha. O de Gil trazia a erudição debochada do maestro Duprat e o ar mais puro e fresco do Tropicalismo: Os Mutantes.
No livro Balanço da Bossa, compilação de ensaios coordenada por Augusto de Campos, Caetano descreve a Tropicália como uma tentativa de retomar da chamada linha evolutiva da música popular brasileira, subordinada, na época, a um padrão estético autoritário e pouco coerente com as premissas da Bossa Nova, implícitas no estilo e nas escolhas musicais de João Gilberto. Os tropicalistas pretendiam romper todas as fronteiras existentes entre os gêneros musicais, conferindo valor ao que não era reconhecido e desconstruindo os bezerros de ouro adorados por uma crítica fascistóide e retrógrada. Com essa pretensão, Caetano gravou no disco Tropicália, com delicadeza extrema, num arranjo espetacular de Duprat, a canção Coração Materno, hit popular de Vicente Celestino, um cantor meio operístico tido como cafona por parte desta mesma crítica. Posteriormente, Caetano cantaria Carolina, de Chico Buarque, o xodó dos puristas, de modo aparentemente descuidado, sujo, criando uma falsa impressão de desdém, o que irritou o próprio Chico, na época contraposto aos tropicalistas como o modelo do bom compositor. Os Mutantes, sob a batuta inconfundível do maestro Duprat, por sua vez, avacalharam sem dó uma espécie de hino dos puristas, Chão de Estrelas, velho sucesso de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas.
A demolição dos padrões de bom gosto e a superação do sectarismo nacionalista são resultado inegável da Tropicália. Depois daqueles anos que se seguiram ao III Festival da Record, tudo se tornou possível na música brasileira. E não só na música brasileira.