Arquivo da categoria: Tropicalismo

UMA CRIANÇA SORRIDENTE, FEIA E MORTA

TantraTropicália

Em outubro deste ano, o tropicalismo completa 40 anos. Foi no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, naquele mês de 1967, que Caetano Veloso e Gilberto Gil lançaram aos ares os acordes dissonantes que implodiram a cortina de ferro onde se entrincheirava a chamada “música de raiz”, uma ficção nacional-comunista. A MPB, sigla construída ao estilo da esquerda ortodoxa de então, assumira a condição de guardiã das tradições musicais brasileiras, na vã tentativa de mantê-las incólumes às novas formas de expressão, representadas pelo rock internacional e outras manifestações da contracultura.

Soy Loco Por Ti América – Clipe

Quando surgiu o tropicalismo, o mundo era uma barulheira. Todo mundo dava palpite. Eram várias revoluções por minuto, em todas as áreas, da política à alta costura, da poesia aos usos e costumes, da engenharia espacial à psicanálise.

No Brasil, estávamos na sala de espera do AI-5, a música popular ainda era uma grande arena de talentos e as artes em geral, cinema, teatro, literatura, artes plásticas, estavam imbuídas pela idéia da grande transformação. A televisão tomava o lugar do rádio como panteão nacional, onde se gestavam os novos heróis da cultura de massas.

A revolução dos Reis do Iê-Iê-Iê

Os musicais da TV Record refletiam tendências estanques: o iê-iê-iê, versão tupiniquim do rock ítalo-anglo-americano, a velha guarda da música brasileira, a chamada nova MPB e a cafonália, com seus bolerões, guarânias e versões de hits cafonas vindos da Itália, França e Estados Unidos. Cada qual tinha o seu próprio programa, em forma de revista, recital, parada de sucessos.

Gilberto Gil/Os MutantesDomingo no Parque

Essas tendências, de alguma forma, seguiam – à exceção do iê-iê-iê – fórmulas com tradição na escola musical brasileira. A Record, como havia acontecido com a Rádio Nacional no passado, reuniu todas elas e serviu de panela onde se cozinharam as contradições, que vieram a explodir aos primeiros acordes de guitarra dos Beat Boys em Alegria, Alegria e dos violinos e metais de Rogério Duprat na introdução de Domingo no Parque, no III Festival de Música Popular Brasileira, em outubro de 1967, no palco do Teatro Paramount.

Gal CostaDivino Maravilhoso

A ruptura representada pela introdução das guitarras elétricas e da estética psicodélica dos Beat Boys e dos Mutantes, ao lado de dois músicos tidos como seguidores da tradição nacionalista, teve um impacto midiático sem equivalente nos dias atuais. E aquilo era só o começo. Nos anos seguintes, os festivais de música estariam definitivamente marcados pela polarização entre tropicalistas e emepebistas.

Os Mutantes – Preciso Urgentemente Encontrar um Amigo

Os dois primeiros discos individuais de Caetano e Gil traziam novidades de forma e conteúdo, que puseram em alerta os cães de guarda das tradições nacionais. No de Caetano, sobressaía a música Tropicália, nome inspirado numa obra do artista plástico Hélio Oiticica e versos com pretensão de traduzir o impacto estético do filme Terra em Transe, do também baiano Glauber Rocha. O de Gil trazia a erudição debochada do maestro Duprat e o ar mais puro e fresco do Tropicalismo: Os Mutantes.

Tom ZéO Amor é um Rock

Ali se alinhavava a colcha de retalhos do movimento, apresentado em sua forma definitiva no disco Tropicália, lançado em 1968, reunindo Caetano, Gil, Gal, Mutantes, Tom Zé, Nara, Rogério Duprat e os poetas Torquato Neto e Capinan.

Caetano Veloso – Saudosismo

O tropicalismo foi além desses nomes, mas não enfeixava, necessariamente, os que a ele de alguma forma se aliaram. Como os poetas concretistas, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e o Décio Pignatari. Ou então os maestros identificados com o Movimento Música Nova, de onde saíram Duprat e Júlio Medaglia (autor do arranjo da canção Tropicália). Mas as idéias se espraiaram por outras modalidades artísticas e inspiraram peças de teatro de grande impacto na época, como O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada por Zé Celso Martinez Correa; e filmes como Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

João Gilberto/Caetano Veloso – O Pato

No livro Balanço da Bossa, compilação de ensaios coordenada por Augusto de Campos, Caetano descreve a Tropicália como uma tentativa de retomar da chamada linha evolutiva da música popular brasileira, subordinada, na época, a um padrão estético autoritário e pouco coerente com as premissas da Bossa Nova, implícitas no estilo e nas escolhas musicais de João Gilberto. Os tropicalistas pretendiam romper todas as fronteiras existentes entre os gêneros musicais, conferindo valor ao que não era reconhecido e desconstruindo os bezerros de ouro adorados por uma crítica fascistóide e retrógrada. Com essa pretensão, Caetano gravou no disco Tropicália, com delicadeza extrema, num arranjo espetacular de Duprat, a canção Coração Materno, hit popular de Vicente Celestino, um cantor meio operístico tido como cafona por parte desta mesma crítica. Posteriormente, Caetano cantaria Carolina, de Chico Buarque, o xodó dos puristas, de modo aparentemente descuidado, sujo, criando uma falsa impressão de desdém, o que irritou o próprio Chico, na época contraposto aos tropicalistas como o modelo do bom compositor. Os Mutantes, sob a batuta inconfundível do maestro Duprat, por sua vez, avacalharam sem dó uma espécie de hino dos puristas, Chão de Estrelas, velho sucesso de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas.

A demolição dos padrões de bom gosto e a superação do sectarismo nacionalista são resultado inegável da Tropicália. Depois daqueles anos que se seguiram ao III Festival da Record, tudo se tornou possível na música brasileira. E não só na música brasileira.

Cibelle/Devendra BanhartLondon, London

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A DAMA COM O CHAPÉU TUTTI FRUTTI

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Os Beatles não tinham nascido. A psicodelia não fazia sentido. A Tropicália não estava nos dicionários. Até mesmo a palavra pop era, quando muito, uma onomatopéia para explosão, erupção. Mas já havia Carmen Miranda, a mensagem na garrafa que os náufragos de Pindorama jogaram ao mar e que foi parar na terra de Tio Sam no final dos anos 30. Carmen nos States foi uma declaração do nosso imperialismo. Era a principal artista da música brasileira, que na década anterior, na barriga do carnaval de rua e nas ondas do rádio recém instalado, ganhava uma força definitiva como a principal expressão artística popular do país. O jornalista Ruy Castro escreveu a biografia de Carmen e lá tem tudo o que se precisa saber dela.

O coração de Carmen explodiu quando ela se preparava para dormir, no quarto da sua casa em Beverly Hills. Ela já havia tido (passe o cursor sobre o link sublinhado, sem clicar; espere abrir a janelinha do YouTube, aí clique sobre a imagem para ver) um discreto piripaque durante uma apresentação, naquela mesma noite, num show de televisão do apresentador americano Jimmy Durante. Carmen morreu nova, 46 anos, destruída por um extensivo consumo de um coquetel de anfetaminas e barbitúricos, dieta típica do show business americano da época.

Mas ela ainda está na parada. Porque, sem ela, tudo, absolutamente tudo, que aconteceu de importante na música brasileira teria sido diferente. Bossa Nova, Tropicália, Rock Brasileiro.

Este é talvez o primeiro clipe psicodélico e tropicalista da história da música pop.

“The Lady In The Tutti-Frutti Hat”

“Rebola Bola”

“Chica Chica Boom Chic”

“I Like You Very Much”

“Cae, Cae”

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